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quarta-feira, 28 de novembro de 2012

frutos

S...abedoria
   I...luminação
      L...iberdade
         E...ntendimento
            N...obreza
               C...onsciência
                   I...nteligência
                      O...rganização


Fr. Leandro Nandi

terça-feira, 27 de novembro de 2012

hobby


Quatro perguntas:



Qual o cheiro de tua alma?
.
Qual o sabor do teu coração?
.
Quando fechas os olhos, o que vês?
.
O que trazes nas mãos?


Fr. Leandro Nandi

Ciclos


Duas vontades:

1. Falar de ciclos.
2. Não falar de ciclos.

1. Falar de ciclos porque são fundamentais. É no encerramento de um e início de outro que temos a oportunidade de desfazermo-nos das roupagens antigas e tecer vestes novas para a existência. Neles trocamos as cascas. Os ciclos marcados, iniciados, encerrados, celebrados, nos tornam mais humanos. Os ciclos nos renovam e nos impulsionam.
2. Não falar de ciclos porque cansa. Porque nunca se fala o suficiente. Porque eles tocam o que há de mais profundo em nós, lá onde calamos. Porque eles não podem ser dissecados pela linguagem conceitual que tudo quer determinar dentro de normas racionais. Porque é mistério.

Essencial:

Perceber os ciclos e vivenciá-los.

Dica 1: Na natureza.
Dica 2: Na Liturgia (Obra divino-humana de transformação do homem).

Obs. da dica1: Não quero adentrar as nuances dos ciclos naturais. Contemplai-os!

Obs. da dica 2: A Liturgia essa semana fecha um ciclo e abre outro: Encerra-se um Ano Litúrgico; Inicia-se um Novo Ano. Morremos para o ontem, renasceremos para o amanhã. Cristo é gerado em nós. É Advento, vinda, chegada, começo. Vivenciai-o!

OBS final.: Ciclos não são círculos, são espirais. 



Fr. Leandro Nandi

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Da beleza de sonhar.




Um dia alguém me falou de seus sonhos:

‘Sabe, padre, o que eu queria?
Uma casa alta, com janela pro mar,
E um Filtro dos Sonhos balançando na janela;
Uns tapetes coloridos; alguns amigos e um cachorro;
Ah, e um gato também...
E amor, muito amor, capaz de encher uma casa, capaz de encher uma vida;
E alguns incensos pra perfumar o entardecer.’

Achei um sonho tão bonito que, no mesmo momento, elevei meu coração em prece para que se realizasse.


(Fr. Leandro Nandi)

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Sobre a negação das realidades ou...



Da atitude do avestruz

(Fr. Leandro Nandi)


Sabemos por nos contarem - talvez alguém que leia estas linhas tenha tido a ‘inusitada’ experiência de saber por ter visto - que os avestruzes quando sentem medo enfiam suas cabeças em buracos para não verem o que se passa em volta. Acreditam, isso dizem algumas pessoas, que por não estarem vendo, as coisas em sua volta deixam de acontecer. Outros interpretam que agem dessa forma para camuflarem-se e, assim, passarem despercebidos ao predador que ao vê-los de longe os confundem com arbustos e deixa-os em paz. Pois bem, não é propriamente disto, sobre a vida desses interessantes animais que quero escrever, mas, sobre nós, humanos. A atitude dos avestruzes é significativa porque ilustra muito bem algo sobre outro tipo de animais, os chamados racionais. Um olhar atento faz-nos perceber que no meio humano, metaforicamente, pratica-se a mesma ação: Volta e meia esconde-se a cabeça num buraco negando o que se passa em volta. É sobre isso que quero escrever, principalmente quando essa realidade toca-nos enquanto ‘cristãos’.
Cristãos sim, porque ao longo da história é frequente nesse meio, infelizmente, negar realidades terrenas enterrando a cabeça - vejam que paradoxal - no céu, como se com isso a terra e suas penúrias deixassem de existir. Não me entendam mal, caros leitores, escrevo com o perdão da palavra, eu, cristão também, ao menos buscando ser, já que todos nascemos pagãos e a construção do ser cristão demora uma vida toda. É, pois, justamente por isso que escrevo, para, quem sabe, ajudar a mim mesmo a tornar-me um cristão melhor e, porque não, os senhores, caros leitores, também assim sê-lo.
Pois bem, introduções feitas, perdões pedidos, vamos ao que interessa nesse texto e é aqui que quero chegar: Simplesmente negar uma realidade qualquer nunca foi nem nunca será a atitude mais madura a se seguir. Faz-se necessário sempre ter a ‘audácia’ de acolher qualquer realidade, por mais absurda que possa parecer a princípio, na nossa sala de estar; sentar e ‘tomar chá’ em sua companhia, ouvir com os ouvidos limpos o que nos tem a dizer. Só no diálogo autêntico poderemos compreendê-la. Só depois de olhá-la e vê-la com olhos sinceros é que saberemos, ainda que sempre limitadamente, o que podemos fazer com ela.
Acredito, sinceramente, que os cristãos não precisam fechar-se em guetos culturais e de linguagem, tão comuns, para manterem-se como tais. Ao contrário, se assim agem, estão decretando a própria morte, cavando sepulturas de pseuda e fraca fé, pois a essência do Cristianismo, aquilo que encontra resposta no mais profundo do coração cristão, sempre foi a abertura ao Novo que vem, embora nem sempre esse Novo tenha sido vivido ou sinceramente integrado e acolhido.
Não tem como ser cristão só na dimensão vertical, vivendo uma fé idealizada, mas não real. O real toca o horizonte da humanidade, suja as mãos com as penúrias humanas na tentativa de encontrar a melhor maneira de ajudar quem cai. Tanto é assim que o Verbo se fez carne, se fez realidade humana para nos tirar da antiga pretensão de alcançarmos o céu sem precisar olhar para nossa terra e suas dolorosas realidades, marcada por corações feridos pelas opressões e incompreensões. O Novo que sempre vem, Jesus Cristo, nunca fechou-se ao diálogo, aos encontros, à escuta do coração dos irmãos. O sempre novo Jesus Cristo, do qual somos discípulos, não nos indica, acaso, o caminho do verdadeiro discipulado?
Meus queridos irmãos terrenos, o céu não nos é dado para nos iludirmos, para que tenhamos um buraco onde esconder a cabeça e fugir da realidade. O céu esta aí para orientar nosso caminhar terreno, para ajudar a perceber que a terra não está entregue a si mesma, mas iluminada e aquecida pelo amor salvífico de Deus, amor, do qual o cristão deve ser fiel canal.
Vale lembrar a essa altura, caros e corajosos leitores, que aceitar qualquer atitude baseados no que uma ‘autoridade’ disse é válida em alguns casos, mas ainda infantil. Deve-se chegar às conclusões por si próprios, buscando, com reta intenção, descobrir as raízes e os porquês que determinada autoridade disse ‘isso’ ou ‘aquilo’, buscar compreender as verdadeiras motivações. Só assim seremos maduros de fato e, seguros das opções feitas, conseguiremos olhar com tranquilidade o que nos cerca, sem enterrarmos a cabeça, por medos inconscientes, em capas protetoras.
Por fim, sei que a associação entre a atitude dos avestruzes e dos humanos não é nova, outros já a fizeram, mas também sei que sempre há algo novo para se refletir sobre velhas coisas. Mais do que as possíveis intenções dos avestruzes vale refletir sobre as nossas intenções de assim agirmos. Ao olharmos aqueles animais talvez interpretemos e projetemos neles intenções humanas, bem humanas. Que os avestruzes tentam esconder-se é fato, mas não é fato as intenções com que o fazem. Eles escondem-se para fugir da realidade, ou somos nós? Escondem-se para camuflarem-se e viverem numa falsa paz, ou somos nós? Uma coisa é clara, a natureza ainda tem muito a ensinar-nos sobre quem somos, assim como Cristo tem muito a ensinar-nos sobre quem podemos ser.


sábado, 17 de novembro de 2012

Desencontros

Hoje encontrei uma pessoa que disse-me não ter tempo de olhar as estrelas. 
Que triste deve ser essa pessoa...!

***

Prosa, fé e imaginação.



 A incrível saga de um velho eremita.

(Fr. Leandro Nandi)

Nas horas mais insalubres da noite, por detrás da grande floresta, ouço o vento soprar no deserto dos amores perdidos. Sob as ruínas dos velhos templos vociferam demônios e chacais e a pequena fogueira do solitário eremita é o único anúncio de que ainda há esperança.
Sob  o uivo dos cães e dos ventos, sob os trôpegos passos dos demônios ruidosos, o velho eremita recita uma antiga oração e observa na luz do fogo os olhares em brasas que o cercam. Devorariam-no  lobos das naturas infernais se a fé não estivesse como o fogo vivo em seu peito: Aflita  fogueira a contorcer-se em temores trêmulos. Luzes e sombras a dançar nas barbas brancas do eremita louco.
Saltita entre ruínas o caprino Azazel, com pútrido cheiro trazido das sepulturas. Rasteja na areia a velha Serpente, astuta e traiçoeira. Vocifera blasfêmias em forma de grunhidos, Astaróth, o suíno. Mugidos estarrecedores saem da boca bovina  de Belzebu. O Senhor das moscas está presente onde outrora fora um altar. O velho impassível  chora ao sentir o azedume no ar.
A pequena fogueira enfraquece. Chacais e demônios agradecem seu senhor. Danças orgiásticas começam ao redor da antiga torre. Lilith, a primeira mulher de Adão, luxuriosamente convoca o inferno para as brincadeiras imorais. Sopra forte o vento na escuridão deserta. Incubus, o dominador, sobrepõe-se aos mais fracos. Sucubus, o dominado, suga a força dos fortes. E o eremita chora, vendo fúnebres corujas que anunciam o triste final.
Sabe o velho que será servido em instantes, resta uma última brasa no chão e no coração. O fraco velho recita seu último verso: “Libera nos a malo”. Entrega o espírito Àquele que alimentou o fogo até então. Uma última brasa de fé ilumina a última lágrima de emoção, depois cerra os olhos à espera da derrota final.
Entrevê, porém, o que pensa ser alucinação: O céu mais claro no horizonte quebrando levemente a negrura do céu e, na hora do golpe final, onde as babas pútridas dos demônios a lamber os beiços pingavam nas barbas do velho, veio um raio de luz, e outro, e outro, e outro. De sobressalto subiu no horizonte o sol. “Subiu no horizonte o sol”, jubilou fraco o velho - e o sol não era ilusão.
Diabos raivosos esgueiraram-se sorrateiramente pelas ruínas, procurando a escuridão. Abandonaram ao lado da fogueira apagada o velho que jazia com um fraco sorriso no rosto aquecido de sol. Bem lá no fundo ele sabia que não se decepcionaria. Agora recebera o que esperara até então. Valeu sua confiança, isso indicava-lhe o arrebol. Para que ainda a fé? Para que a esperança? Em ânsias a fogueira pode enfim ser apagada, pois na face do velho eremita, já brilhava o próprio Sol. Já brilhava o próprio Sol.



quinta-feira, 15 de novembro de 2012

33º Domingo do Tempo Comum (B)


Algo sobre o fim do mundo... e um pouco de nós.

(Fr. Leandro Nandi)



A Palavra de Deus, sempre viva e atualizando-se no tempo através da Liturgia da Igreja nos aponta, nesse penúltimo Domingo do Ano Litúrgico, para as realidades últimas a respeito da vida humana e das coisas terrenas. A essa reflexão damos o nome de ‘Escatologia’: Reflexão, a partir da Revelação, sobre os últimos eventos na história do mundo e do destino final do gênero humano, o que popularmente chamamos ‘fim do mundo’.
Mais do que assustar-nos, a Palavra de Deus quer nos proporcionar a consciência de que todas as coisas desse mundo são passageiras e tem seu tempo determinado para dar seu lugar à coisas novas. Nós, inclusive, de certo modo, para essa realidade terrena, também somos passageiros, não fixamos morada eterna aqui neste mundo, também nós temos nosso tempo determinado e damos lugar a outros, assim como um dia outros deram lugar a nós. A história de cada um também é marcada por esse ‘rio’ que tudo trás e tudo leva, esse fluxo de passagem que pode ser considerado como a Lei deste mundo.
Mas é justamente no ‘leito desse rio’ que Deus quis realizar sua obra maior; maior que criação passageira: restaurar todas as coisas através de Jesus Cristo. Restaurar para uma realidade final que não se estraga, não apodrece, que não se perde no vazio da morte, do passageiro, do efêmero, do fugaz. Para isso foi que Deus fixou aqui sua morada, assumindo em Jesus Cristo nossa história passageira, nosso fluir, para com a rocha luminosa da cruz e, sobretudo, de Ressurreição de Jesus, marcar e iniciar no tempo algo que o tempo não corrompe, que não passa, algo eterno. Os antigos monges cartuxos tem um lema latino que expressa muito bem isso: “Stat Crux dum volvitur orbis”. “A cruz permanece firme enquanto o mundo gira.” A cruz como sinal visível da grandiosa obra de amor de Deus por nós, que consiste em restaurar todas as coisas em Cristo, permanece firme em meio às intempéries e inconstâncias do mundo. Essa realidade toca tudo e a todos: A partir de Cristo todas as coisas antigas já começaram a dar lugar a uma nova realidade que cresce em nós e em nosso meio lentamente, delicadamente, sem ser ostensiva, como é próprio de Deus, mas firme e certa, aliás, única coisa firme e certa num mundo de incertezas e fragilidades.
A partir de Cristo o mundo antigo já caminha para o seu fim e o novo já começa a desenvolver-se. Mais que para o fim-do-mundo, caminhamos para o dia em que se realizará de forma completa essa grandiosa obra de transformação das realidades terrenas em realidades divinas. Nossa fé nos dá a certeza de estarmos caminhando não para o vazio, mas para a realização plena de algo planejado, pensado (se é que podemos assim dizer) e, sobretudo, amado por Deus. Em Cristo nós, juntamente com toda a criação, deixamos de ser passageiros, efêmeros, nossa vida ganha eco na eternidade. O mundo é tocado pelo divino e transformado a partir desse toque cheio de amor. Por Cristo adentramos o Eterno. Com Cristo somos preservados de sermos arrastados pelas correntezas do mundo antigo que quer nos fazer desaparecer e fixamos nova morada de onde o tempo não tem o poder de nos tirar.
É inevitável e humanamente compreensível a pergunta que palpita agora em nossos corações como, um dia, palpitou nos corações dos apóstolos: Quando essa perfeição se concretizará de forma plena? A resposta é simples: Não sabemos. Por Cristo, com Cristo, em Cristo, fazemos com que nossas ações contribuam também para dilatar essa nova realidade divina. Através de nossa vida podemos apressar a realização do Reino de Deus. Ou então, não.  Somos livres e nossa liberdade nos permite de, ao invés de atrair o Reino de Deus para nós e para quem nos circunda, afastá-lo, reprimí-lo, impedi-lo de acontecer por um tempo, fazer com que sua realização demore mais. Isso pode acontecer e acontece quando não temos em Cristo o fundamento e a força de nossa ação, quando realizamos tudo por nós mesmos, com nossas obscuridades e más intenções, em nossa fraqueza humana individual e coletiva. Como vemos, Deus, que não quis fazer tudo sozinho, quer contar conosco para a realização de sua obra e nossas ações podem contribuir para ‘apressar’ ou não a plenitude do Seu Reino.
Importante, porém, sabermos que Deus não deixa sua obra somente em nossas mãos, tampouco deixa-a pela metade. Conta conosco, e nos recompensa por isso, mas a obra está fundamentada em Cristo: fundamento verdadeiro, eficaz, fiel. Por isso é certa e temos a garantia que se completará. Quando? Não sabemos, depende da abertura dos corações para essa realidade e isso somente o Pai é capaz de perceber perfeitamente. O Pai que, no final, nos fará levantar com Cristo e dará, a cada um, conforme aquilo que formos. O juízo final de que tanto se fala e que nos espera nada mais é que isso: a revelação daquilo que realmente somos.
Pode, talvez, surgir em nossa mente uma nova pergunta: Como saber quem somos? Reflitamos: Quando queremos saber quem é alguém, o que procuramos saber senão sua história? É a história de Jesus que diz quem Ele é. Da mesma forma, é nossa história que nos diz quem nós somos. É ela que constitui como que uma luz, lançada sobre nós mesmos. Quem somos nós, afinal? Aqui, no entanto, é necessário estarmos atentos; aqui há de se prestar atenção, pois sabemos que a história de cada um pode ser contada de muitas maneiras, contendo inúmeras interpretações dos fatos, conforme o olhar de quem conta. Nós mesmos ao olharmos para nossa história contemplamo-la com o olhar limitado por nossos conceitos, fugas, ilusões. Vemo-la de acordo com o que queremos ou podemos ou suportamos, somos limitados na visão. Mas a morte nos mostrará toda a verdade. A morte nos revelará quem realmente somos.
Isso dá medo? Não deveria. O medo aqui, todavia, constitui um sinal complexo. Por um lado se apresenta como um mau sinal, porque indica que não estamos andando bem; mas, por outro, pode ser visto também como um bom sinal.  Bom, porque nos revela uma consciência já despertada, atenta para o fato de que podemos e devemos ser melhores em nosso agir. A partir disso, sejamos pois, melhores então, unamo-nos mais intimamente a Cristo na feliz certeza de que nossa história individual e coletiva esta unida a Dele e por isso restaurada, protegida, preservada ; Unamo-nos mais intimamente a Cristo para assim podermos caminhar confiantes na fé, na esperança e nas boas obras que nos darão desde já, paz de espírito e alegria ao coração e, quando soarem as trombetas que marcam o final dessa história, adentrarmos jubilosos para recebermos os frutos de nosso trabalho, adentrarmos para a alegria plena que não mais tem fim.
Por fim, deixo uma frase de santo Agostinho como exortação: "Ele virá, quer queiramos, quer não."


Fr. Leandro Nandi