A Palavra de
Deus, sempre viva e atualizando-se no tempo através da Liturgia da Igreja nos
aponta, nesse penúltimo Domingo do Ano Litúrgico, para as realidades últimas a
respeito da vida humana e das coisas terrenas. A essa reflexão damos o nome de
‘Escatologia’: Reflexão, a partir da Revelação, sobre os últimos eventos na
história do mundo e do destino final do gênero humano, o que popularmente
chamamos ‘fim do mundo’.
Mais do que
assustar-nos, a Palavra de Deus quer nos proporcionar a consciência de que todas
as coisas desse mundo são passageiras e tem seu tempo determinado para dar seu
lugar à coisas novas. Nós, inclusive, de certo modo, para essa realidade
terrena, também somos passageiros, não fixamos morada eterna aqui neste mundo,
também nós temos nosso tempo determinado e damos lugar a outros, assim como um
dia outros deram lugar a nós. A história de cada um também é marcada por
esse ‘rio’ que tudo trás e tudo leva, esse fluxo de passagem que pode ser
considerado como a Lei deste mundo.
Mas é justamente
no ‘leito desse rio’ que Deus quis realizar sua obra maior; maior que criação
passageira: restaurar todas as coisas através de Jesus Cristo. Restaurar para
uma realidade final que não se estraga, não apodrece, que não se perde no vazio
da morte, do passageiro, do efêmero, do fugaz. Para isso foi que Deus fixou
aqui sua morada, assumindo em Jesus Cristo nossa história passageira, nosso
fluir, para com a rocha luminosa da cruz e, sobretudo, de Ressurreição de
Jesus, marcar e iniciar no tempo algo que o tempo não corrompe, que não passa,
algo eterno. Os antigos monges cartuxos tem um lema latino que expressa muito
bem isso: “Stat Crux dum volvitur orbis”. “A cruz permanece firme enquanto o
mundo gira.” A cruz como sinal visível da grandiosa obra de amor de Deus por
nós, que consiste em restaurar todas as coisas em Cristo, permanece firme em
meio às intempéries e inconstâncias do mundo. Essa realidade toca tudo e a
todos: A partir de Cristo todas as coisas antigas já começaram a dar lugar a
uma nova realidade que cresce em nós e em nosso meio lentamente, delicadamente,
sem ser ostensiva, como é próprio de Deus, mas firme e certa, aliás, única
coisa firme e certa num mundo de incertezas e fragilidades.
A partir de
Cristo o mundo antigo já caminha para o seu fim e o novo já começa a
desenvolver-se. Mais que para o fim-do-mundo, caminhamos para o dia em que se
realizará de forma completa essa grandiosa obra de transformação das realidades
terrenas em realidades divinas. Nossa fé nos dá a certeza de estarmos caminhando
não para o vazio, mas para a realização plena de algo planejado, pensado (se é
que podemos assim dizer) e, sobretudo, amado por Deus. Em Cristo nós,
juntamente com toda a criação, deixamos de ser passageiros, efêmeros, nossa
vida ganha eco na eternidade. O mundo é tocado pelo divino e transformado a
partir desse toque cheio de amor. Por Cristo adentramos o Eterno. Com Cristo
somos preservados de sermos arrastados pelas correntezas do mundo antigo que
quer nos fazer desaparecer e fixamos nova morada de onde o tempo não tem o poder
de nos tirar.
É inevitável e
humanamente compreensível a pergunta que palpita agora em nossos corações como,
um dia, palpitou nos corações dos apóstolos: Quando essa perfeição se
concretizará de forma plena? A resposta é simples: Não sabemos. Por
Cristo, com Cristo, em Cristo, fazemos com que nossas ações contribuam também
para dilatar essa nova realidade divina. Através de nossa vida podemos apressar
a realização do Reino de Deus. Ou então, não.
Somos livres e nossa liberdade nos permite de, ao invés de atrair o
Reino de Deus para nós e para quem nos circunda, afastá-lo, reprimí-lo,
impedi-lo de acontecer por um tempo, fazer com que sua realização demore mais.
Isso pode acontecer e acontece quando não temos em Cristo o fundamento e a
força de nossa ação, quando realizamos tudo por nós mesmos, com nossas
obscuridades e más intenções, em nossa fraqueza humana individual e coletiva.
Como vemos, Deus, que não quis fazer tudo sozinho, quer contar conosco para a
realização de sua obra e nossas ações podem contribuir para ‘apressar’ ou não a
plenitude do Seu Reino.
Importante,
porém, sabermos que Deus não deixa sua obra somente em nossas mãos, tampouco
deixa-a pela metade. Conta conosco, e nos recompensa por isso, mas a obra está fundamentada em Cristo: fundamento verdadeiro, eficaz, fiel. Por isso é certa e
temos a garantia que se completará. Quando? Não sabemos, depende da abertura
dos corações para essa realidade e isso somente o Pai é capaz de perceber
perfeitamente. O Pai que, no final, nos fará levantar com Cristo e dará, a cada
um, conforme aquilo que formos. O juízo final de que tanto se fala e que nos
espera nada mais é que isso: a revelação daquilo que realmente somos.
Pode, talvez,
surgir em nossa mente uma nova pergunta: Como saber quem somos? Reflitamos:
Quando queremos saber quem é alguém, o que procuramos saber senão sua história?
É a história de Jesus que diz quem Ele é. Da mesma forma, é nossa história que
nos diz quem nós somos. É ela que constitui como que uma luz, lançada sobre nós
mesmos. Quem somos nós, afinal? Aqui, no entanto, é necessário estarmos
atentos; aqui há de se prestar atenção, pois sabemos que a história de cada um
pode ser contada de muitas maneiras, contendo inúmeras interpretações dos
fatos, conforme o olhar de quem conta. Nós mesmos ao olharmos para nossa
história contemplamo-la com o olhar limitado por nossos conceitos, fugas,
ilusões. Vemo-la de acordo com o que queremos ou podemos ou suportamos, somos
limitados na visão. Mas a morte nos mostrará toda a verdade. A morte nos
revelará quem realmente somos.
Isso dá medo?
Não deveria. O medo aqui, todavia, constitui um sinal complexo. Por um lado se
apresenta como um mau sinal, porque indica que não estamos andando bem; mas,
por outro, pode ser visto também como um bom sinal. Bom, porque nos revela uma consciência já
despertada, atenta para o fato de que podemos e devemos ser melhores em nosso
agir. A partir disso, sejamos pois, melhores então, unamo-nos mais intimamente
a Cristo na feliz certeza de que nossa história individual e coletiva esta
unida a Dele e por isso restaurada, protegida, preservada ; Unamo-nos mais
intimamente a Cristo para assim podermos caminhar confiantes na fé, na
esperança e nas boas obras que nos darão desde já, paz de espírito e alegria ao
coração e, quando soarem as trombetas que marcam o final dessa história,
adentrarmos jubilosos para recebermos os frutos de nosso trabalho, adentrarmos
para a alegria plena que não mais tem fim.
Por fim, deixo
uma frase de santo Agostinho como exortação: "Ele virá, quer queiramos,
quer não."