Da atitude do avestruz
(Fr. Leandro Nandi)
Sabemos por
nos contarem - talvez alguém que leia estas linhas tenha tido a ‘inusitada’ experiência
de saber por ter visto - que os avestruzes quando sentem medo enfiam suas
cabeças em buracos para não verem o que se passa em volta. Acreditam, isso dizem algumas pessoas, que por
não estarem vendo, as coisas em sua volta deixam de acontecer.
Outros interpretam que agem dessa forma para camuflarem-se e, assim, passarem
despercebidos ao predador que ao vê-los de longe os confundem com arbustos e
deixa-os em paz. Pois bem, não é propriamente disto, sobre a vida desses
interessantes animais que quero escrever, mas, sobre nós, humanos. A atitude
dos avestruzes é significativa porque ilustra muito bem algo sobre outro tipo
de animais, os chamados racionais. Um olhar atento faz-nos perceber que no meio
humano, metaforicamente, pratica-se a mesma ação: Volta e meia esconde-se a
cabeça num buraco negando o que se passa em volta. É sobre isso que quero escrever,
principalmente quando essa realidade toca-nos enquanto ‘cristãos’.
Cristãos sim,
porque ao longo da história é frequente nesse meio, infelizmente, negar
realidades terrenas enterrando a cabeça - vejam que paradoxal - no céu, como se com isso a terra e suas
penúrias deixassem de existir. Não me entendam mal, caros leitores, escrevo com
o perdão da palavra, eu, cristão também, ao menos buscando ser, já que todos
nascemos pagãos e a construção do ser cristão demora uma vida toda. É, pois,
justamente por isso que escrevo, para, quem sabe, ajudar a mim mesmo a tornar-me
um cristão melhor e, porque não, os senhores, caros leitores, também assim
sê-lo.
Pois bem,
introduções feitas, perdões pedidos, vamos ao que interessa nesse texto e é
aqui que quero chegar: Simplesmente negar uma realidade qualquer nunca foi nem nunca
será a atitude mais madura a se seguir. Faz-se necessário sempre ter a ‘audácia’
de acolher qualquer realidade, por mais absurda que possa parecer a princípio, na
nossa sala de estar; sentar e ‘tomar chá’ em sua companhia, ouvir com os
ouvidos limpos o que nos tem a dizer. Só no diálogo autêntico poderemos
compreendê-la. Só depois de olhá-la e vê-la com olhos sinceros é que saberemos,
ainda que sempre limitadamente, o que podemos fazer com ela.
Acredito, sinceramente, que os cristãos não precisam fechar-se em guetos culturais e de linguagem, tão
comuns, para manterem-se como tais. Ao contrário, se assim agem, estão decretando
a própria morte, cavando sepulturas de pseuda e fraca fé, pois a essência do
Cristianismo, aquilo que encontra resposta no mais profundo do coração cristão,
sempre foi a abertura ao Novo que vem, embora nem sempre esse Novo tenha sido
vivido ou sinceramente integrado e acolhido.
Não tem como
ser cristão só na dimensão vertical, vivendo uma fé idealizada, mas não real. O
real toca o horizonte da humanidade, suja as mãos com as penúrias humanas na
tentativa de encontrar a melhor maneira de ajudar quem cai. Tanto é assim que o
Verbo se fez carne, se fez realidade humana para nos tirar da antiga pretensão
de alcançarmos o céu sem precisar olhar para nossa terra e suas dolorosas
realidades, marcada por corações feridos pelas opressões e incompreensões. O Novo que
sempre vem, Jesus Cristo, nunca fechou-se ao diálogo, aos encontros, à
escuta do coração dos irmãos. O sempre novo Jesus Cristo, do qual somos
discípulos, não nos indica, acaso, o caminho do verdadeiro discipulado?
Meus queridos
irmãos terrenos, o céu não nos é dado para nos iludirmos, para que tenhamos um
buraco onde esconder a cabeça e fugir da realidade. O céu esta aí para orientar
nosso caminhar terreno, para ajudar a perceber que a terra não está entregue a
si mesma, mas iluminada e aquecida pelo amor salvífico de Deus, amor, do qual o
cristão deve ser fiel canal.
Vale lembrar a
essa altura, caros e corajosos leitores, que aceitar qualquer atitude baseados
no que uma ‘autoridade’ disse é válida em alguns casos, mas ainda infantil.
Deve-se chegar às conclusões por si próprios, buscando, com reta intenção, descobrir
as raízes e os porquês que determinada autoridade disse ‘isso’ ou ‘aquilo’, buscar
compreender as verdadeiras motivações. Só assim seremos maduros de fato e,
seguros das opções feitas, conseguiremos olhar com tranquilidade o que nos cerca,
sem enterrarmos a cabeça, por medos inconscientes, em capas protetoras.
Por fim, sei
que a associação entre a atitude dos avestruzes e dos humanos não é nova,
outros já a fizeram, mas também sei que sempre há algo novo para se refletir
sobre velhas coisas. Mais do que as possíveis intenções dos avestruzes vale
refletir sobre as nossas intenções de assim agirmos. Ao olharmos aqueles animais
talvez interpretemos e projetemos neles intenções humanas, bem humanas. Que os
avestruzes tentam esconder-se é fato, mas não é fato as intenções com que o
fazem. Eles escondem-se para fugir da realidade, ou somos nós? Escondem-se para
camuflarem-se e viverem numa falsa paz, ou somos nós? Uma coisa é clara, a
natureza ainda tem muito a ensinar-nos sobre quem somos, assim como Cristo tem
muito a ensinar-nos sobre quem podemos ser.
Frei Leandro, lindo texto. Muitas vezes tomamos a historia do avestruz para justificar a fuga dos nossos problemas. Encarar a realidade nem sempre é facil, mais reconheço que temos o dever de tentar, de olhar de frente nossa pequenez diante da vida e fazer dela um caminho para ir ao encontro do Reino dos Céus, que é tudo que Jesus quer para nós. Abraços e parabéns
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