Produção textual protegida - © Copyright - All Rights Reserved

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Sobre a negação das realidades ou...



Da atitude do avestruz

(Fr. Leandro Nandi)


Sabemos por nos contarem - talvez alguém que leia estas linhas tenha tido a ‘inusitada’ experiência de saber por ter visto - que os avestruzes quando sentem medo enfiam suas cabeças em buracos para não verem o que se passa em volta. Acreditam, isso dizem algumas pessoas, que por não estarem vendo, as coisas em sua volta deixam de acontecer. Outros interpretam que agem dessa forma para camuflarem-se e, assim, passarem despercebidos ao predador que ao vê-los de longe os confundem com arbustos e deixa-os em paz. Pois bem, não é propriamente disto, sobre a vida desses interessantes animais que quero escrever, mas, sobre nós, humanos. A atitude dos avestruzes é significativa porque ilustra muito bem algo sobre outro tipo de animais, os chamados racionais. Um olhar atento faz-nos perceber que no meio humano, metaforicamente, pratica-se a mesma ação: Volta e meia esconde-se a cabeça num buraco negando o que se passa em volta. É sobre isso que quero escrever, principalmente quando essa realidade toca-nos enquanto ‘cristãos’.
Cristãos sim, porque ao longo da história é frequente nesse meio, infelizmente, negar realidades terrenas enterrando a cabeça - vejam que paradoxal - no céu, como se com isso a terra e suas penúrias deixassem de existir. Não me entendam mal, caros leitores, escrevo com o perdão da palavra, eu, cristão também, ao menos buscando ser, já que todos nascemos pagãos e a construção do ser cristão demora uma vida toda. É, pois, justamente por isso que escrevo, para, quem sabe, ajudar a mim mesmo a tornar-me um cristão melhor e, porque não, os senhores, caros leitores, também assim sê-lo.
Pois bem, introduções feitas, perdões pedidos, vamos ao que interessa nesse texto e é aqui que quero chegar: Simplesmente negar uma realidade qualquer nunca foi nem nunca será a atitude mais madura a se seguir. Faz-se necessário sempre ter a ‘audácia’ de acolher qualquer realidade, por mais absurda que possa parecer a princípio, na nossa sala de estar; sentar e ‘tomar chá’ em sua companhia, ouvir com os ouvidos limpos o que nos tem a dizer. Só no diálogo autêntico poderemos compreendê-la. Só depois de olhá-la e vê-la com olhos sinceros é que saberemos, ainda que sempre limitadamente, o que podemos fazer com ela.
Acredito, sinceramente, que os cristãos não precisam fechar-se em guetos culturais e de linguagem, tão comuns, para manterem-se como tais. Ao contrário, se assim agem, estão decretando a própria morte, cavando sepulturas de pseuda e fraca fé, pois a essência do Cristianismo, aquilo que encontra resposta no mais profundo do coração cristão, sempre foi a abertura ao Novo que vem, embora nem sempre esse Novo tenha sido vivido ou sinceramente integrado e acolhido.
Não tem como ser cristão só na dimensão vertical, vivendo uma fé idealizada, mas não real. O real toca o horizonte da humanidade, suja as mãos com as penúrias humanas na tentativa de encontrar a melhor maneira de ajudar quem cai. Tanto é assim que o Verbo se fez carne, se fez realidade humana para nos tirar da antiga pretensão de alcançarmos o céu sem precisar olhar para nossa terra e suas dolorosas realidades, marcada por corações feridos pelas opressões e incompreensões. O Novo que sempre vem, Jesus Cristo, nunca fechou-se ao diálogo, aos encontros, à escuta do coração dos irmãos. O sempre novo Jesus Cristo, do qual somos discípulos, não nos indica, acaso, o caminho do verdadeiro discipulado?
Meus queridos irmãos terrenos, o céu não nos é dado para nos iludirmos, para que tenhamos um buraco onde esconder a cabeça e fugir da realidade. O céu esta aí para orientar nosso caminhar terreno, para ajudar a perceber que a terra não está entregue a si mesma, mas iluminada e aquecida pelo amor salvífico de Deus, amor, do qual o cristão deve ser fiel canal.
Vale lembrar a essa altura, caros e corajosos leitores, que aceitar qualquer atitude baseados no que uma ‘autoridade’ disse é válida em alguns casos, mas ainda infantil. Deve-se chegar às conclusões por si próprios, buscando, com reta intenção, descobrir as raízes e os porquês que determinada autoridade disse ‘isso’ ou ‘aquilo’, buscar compreender as verdadeiras motivações. Só assim seremos maduros de fato e, seguros das opções feitas, conseguiremos olhar com tranquilidade o que nos cerca, sem enterrarmos a cabeça, por medos inconscientes, em capas protetoras.
Por fim, sei que a associação entre a atitude dos avestruzes e dos humanos não é nova, outros já a fizeram, mas também sei que sempre há algo novo para se refletir sobre velhas coisas. Mais do que as possíveis intenções dos avestruzes vale refletir sobre as nossas intenções de assim agirmos. Ao olharmos aqueles animais talvez interpretemos e projetemos neles intenções humanas, bem humanas. Que os avestruzes tentam esconder-se é fato, mas não é fato as intenções com que o fazem. Eles escondem-se para fugir da realidade, ou somos nós? Escondem-se para camuflarem-se e viverem numa falsa paz, ou somos nós? Uma coisa é clara, a natureza ainda tem muito a ensinar-nos sobre quem somos, assim como Cristo tem muito a ensinar-nos sobre quem podemos ser.


Um comentário:

  1. Frei Leandro, lindo texto. Muitas vezes tomamos a historia do avestruz para justificar a fuga dos nossos problemas. Encarar a realidade nem sempre é facil, mais reconheço que temos o dever de tentar, de olhar de frente nossa pequenez diante da vida e fazer dela um caminho para ir ao encontro do Reino dos Céus, que é tudo que Jesus quer para nós. Abraços e parabéns

    ResponderExcluir