A incrível saga de um velho eremita.
Nas horas mais insalubres da noite, por detrás da
grande floresta, ouço o vento soprar no deserto dos amores perdidos. Sob as
ruínas dos velhos templos vociferam demônios e chacais e a pequena fogueira do
solitário eremita é o único anúncio de que ainda há esperança.
Sob o uivo
dos cães e dos ventos, sob os trôpegos passos dos demônios ruidosos, o velho eremita
recita uma antiga oração e observa na luz do fogo os olhares em brasas que o
cercam. Devorariam-no lobos das naturas
infernais se a fé não estivesse como o fogo vivo em seu peito: Aflita fogueira a contorcer-se em temores trêmulos. Luzes
e sombras a dançar nas barbas brancas do eremita louco.
Saltita entre ruínas o caprino Azazel, com pútrido cheiro trazido das sepulturas. Rasteja
na areia a velha Serpente, astuta e traiçoeira. Vocifera blasfêmias em forma de
grunhidos, Astaróth, o suíno. Mugidos estarrecedores saem da boca bovina de Belzebu. O Senhor das moscas está presente
onde outrora fora um altar. O velho impassível
chora ao sentir o azedume no ar.
A pequena fogueira enfraquece. Chacais e demônios
agradecem seu senhor. Danças orgiásticas começam ao redor da antiga torre. Lilith,
a primeira mulher de Adão, luxuriosamente convoca o inferno para as
brincadeiras imorais. Sopra forte o vento na escuridão deserta. Incubus, o
dominador, sobrepõe-se aos mais fracos. Sucubus, o dominado, suga a força dos fortes.
E o eremita chora, vendo fúnebres corujas que anunciam o triste final.
Sabe o velho que será servido em instantes, resta
uma última brasa no chão e no coração. O fraco velho recita seu último verso:
“Libera nos a malo”. Entrega o espírito Àquele que alimentou o fogo até então. Uma
última brasa de fé ilumina a última lágrima de emoção, depois cerra os olhos à
espera da derrota final.
Entrevê, porém, o que pensa ser alucinação: O céu
mais claro no horizonte quebrando levemente a negrura do céu e, na hora do
golpe final, onde as babas pútridas dos demônios a lamber os beiços pingavam
nas barbas do velho, veio um raio de luz, e outro, e outro, e outro. De sobressalto
subiu no horizonte o sol. “Subiu no horizonte o sol”, jubilou fraco o velho - e
o sol não era ilusão.
Diabos raivosos esgueiraram-se sorrateiramente
pelas ruínas, procurando a escuridão. Abandonaram ao lado da fogueira apagada o
velho que jazia com um fraco sorriso no rosto aquecido de sol. Bem lá no fundo ele
sabia que não se decepcionaria. Agora recebera o que esperara até então. Valeu
sua confiança, isso indicava-lhe o arrebol. Para que ainda a fé? Para que a esperança?
Em ânsias a fogueira pode enfim ser apagada, pois na face do velho eremita, já
brilhava o próprio Sol. Já brilhava o próprio Sol.
Linda!
ResponderExcluirForte, visceral...
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