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sábado, 17 de novembro de 2012

Prosa, fé e imaginação.



 A incrível saga de um velho eremita.

(Fr. Leandro Nandi)

Nas horas mais insalubres da noite, por detrás da grande floresta, ouço o vento soprar no deserto dos amores perdidos. Sob as ruínas dos velhos templos vociferam demônios e chacais e a pequena fogueira do solitário eremita é o único anúncio de que ainda há esperança.
Sob  o uivo dos cães e dos ventos, sob os trôpegos passos dos demônios ruidosos, o velho eremita recita uma antiga oração e observa na luz do fogo os olhares em brasas que o cercam. Devorariam-no  lobos das naturas infernais se a fé não estivesse como o fogo vivo em seu peito: Aflita  fogueira a contorcer-se em temores trêmulos. Luzes e sombras a dançar nas barbas brancas do eremita louco.
Saltita entre ruínas o caprino Azazel, com pútrido cheiro trazido das sepulturas. Rasteja na areia a velha Serpente, astuta e traiçoeira. Vocifera blasfêmias em forma de grunhidos, Astaróth, o suíno. Mugidos estarrecedores saem da boca bovina  de Belzebu. O Senhor das moscas está presente onde outrora fora um altar. O velho impassível  chora ao sentir o azedume no ar.
A pequena fogueira enfraquece. Chacais e demônios agradecem seu senhor. Danças orgiásticas começam ao redor da antiga torre. Lilith, a primeira mulher de Adão, luxuriosamente convoca o inferno para as brincadeiras imorais. Sopra forte o vento na escuridão deserta. Incubus, o dominador, sobrepõe-se aos mais fracos. Sucubus, o dominado, suga a força dos fortes. E o eremita chora, vendo fúnebres corujas que anunciam o triste final.
Sabe o velho que será servido em instantes, resta uma última brasa no chão e no coração. O fraco velho recita seu último verso: “Libera nos a malo”. Entrega o espírito Àquele que alimentou o fogo até então. Uma última brasa de fé ilumina a última lágrima de emoção, depois cerra os olhos à espera da derrota final.
Entrevê, porém, o que pensa ser alucinação: O céu mais claro no horizonte quebrando levemente a negrura do céu e, na hora do golpe final, onde as babas pútridas dos demônios a lamber os beiços pingavam nas barbas do velho, veio um raio de luz, e outro, e outro, e outro. De sobressalto subiu no horizonte o sol. “Subiu no horizonte o sol”, jubilou fraco o velho - e o sol não era ilusão.
Diabos raivosos esgueiraram-se sorrateiramente pelas ruínas, procurando a escuridão. Abandonaram ao lado da fogueira apagada o velho que jazia com um fraco sorriso no rosto aquecido de sol. Bem lá no fundo ele sabia que não se decepcionaria. Agora recebera o que esperara até então. Valeu sua confiança, isso indicava-lhe o arrebol. Para que ainda a fé? Para que a esperança? Em ânsias a fogueira pode enfim ser apagada, pois na face do velho eremita, já brilhava o próprio Sol. Já brilhava o próprio Sol.



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